“Morre-se mal em Portugal. Os hospitais estão mal preparados para a fase final”

No debate “Decidir sobre o final da vida”, que decorreu na Universidade de Aveiro, Nuno Miranda, médico do IPO de Lisboa, lamentou a falta de acompanhamento aos doentes em fase terminal nos hospitais portugueses

Nuno Miranda, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, acredita que a longo prazo não há outra solução para o país que não seja a liberalização da eutanásia. Em mais um debate “Decidir sobre o final da vida”, promovido pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, o especialista em hematologia reconheceu ontem que esta não é uma questão simples e que é preciso debater o assunto na sociedade. “As minhas dúvidas são imensas.”

Na sala de Atos Académicos da Universidade de Aveiro, Nuno Miranda começou a sua intervenção criticando a forma como se morre no país: “Morre-se muito mal em Portugal. Morre-se demasiado nos hospitais, o que não é um problema exclusivo de Portugal. Os nossos hospitais estão muito mal desenhados para acompanhar a fase final da vida seja de quem for, com pouca dignidade, com pouco acompanhamento.” Os médicos, lamentou, discutem pouco com os doentes a forma como estes vão morrer. “A discussão com os doentes é rara, escassa. Os médicos têm medo das suas incapacidades, de reconhecer a sua incapacidade em ultrapassar a situação.”

Com uma larga experiência no tratamento de doentes oncológicos, Nuno Miranda lembrou que “o pedido de eutanásia feito pelos doentes é extremamente raro”. A grande maioria dos doentes que chegam à fase terminal “querem mais um dia, querem que cuidemos deles”. Mas quando há um pedido desses, Nuno Miranda sente-se “muito pequenino”. “Tenho uma lei para cumprir. Se o pudesse fazer, não sei. Não sei mesmo, porque não é uma questão simples.”

No painel da sessão estava também Carlos Braz Saraiva, médico psiquiatra e fundador da consulta de Prevenção do Suicídio, que começou por dizer que não se queria assumir como “moralista ou julgador”. “Acima de tudo sou médico, psiquiatra, que já observou centenas de pessoas que cometeram tentativas de suicídio.” E do que observou, “se muitos doentes deprimidos têm ideias de morte isso não significa que assim tantos tenham ideias de suicídio”.

Citando o verso de um poema de José Gomes Ferreira – “Ah, se eu pudesse suicidar-me por seis meses” -, o psiquiatra afirmou que é também isso que acontece com algumas pessoas que têm a ideia de suicídio. “A ambivalência é muito típica dos poetas e dos doentes”, defendeu, dando como exemplo um doente que se atira de uma ponte mas que se agarra ao pilar e não morre. “Sete segundos antes quis morrer e sete minutos depois quis viver. Acredito piamente que a ambivalência vai até ao fim.”

Já Duarte Silva Soares, médico internista que se dedica aos cuidados paliativos, lembrou que este é um tema de saúde pública, o que implica muita informação. Para dar autonomia aos doentes, sublinhou, é preciso “acessibilidade, entendimento e informação”, o que, lamentou, “não estará a acontecer” em Portugal.

“Tenho dúvidas quando alguém diz que eutanásia é praticar compaixão. Acredito que praticar compaixão é acompanhar e cuidar”, afirmou. Quanto àqueles que defendem que a eutanásia é uma “última” resposta quando o sofrimento é intolerável, o médico diz que “quanto mais formação há em cuidados paliativos menos se acha que a eutanásia é uma resposta de primeira, segunda ou terceira”.

Maria do Rosário Zincke dos Reis, representante da Associação Alzheimer Portugal, foi a primeira a intervir no debate, tendo defendido a importância de informar alguém que tem um diagnóstico de demência da possibilidade de tomar decisões sobre o seu futuro, uma decisão antecipada como um testamento vital ou uma procuração. “A eutanásia ainda não é possível, lícita e legal. É importante saber que através do testamento legal nunca podemos querer alcançar o mesmo objetivo que com a eutanásia ou o suicídio assistido”, disse a jurista.

Destacando que “é diferente tornar o fim de vida menos agressivo e pôr fim à vida”, e “sem querer tomar uma posição quanto a este tema tão polémico”, Maria do Rosário levantou uma questão: “Não consigo pensar numa decisão tão séria e radical de pôr fim à vida sem que isso corresponda a uma vontade atual devidamente livre e esclarecida.”

Joana Capucho, Diário de Notícias